Jovens que participam de atividades culturais, esportivas e profissionalizantes praticam menos atos agressivos. O efeito dessas atividades oferecidas por organizações sociais, entretanto, não diminui a exposição deles à violência. A conclusão é fruto da avaliação de dois projetos de intervenção à violência, desenvolvidos nas favelas do Jardim Ângela, em São Paulo, e no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, o projeto social estudado foi o Redescobrindo o Adolescente na Comunidade (RAC), desenvolvido pela Sociedade Santos Mártires. Participaram da avaliação, cerca de 130 jovens, de ambos os sexos, na faixa etária de 12 a 21 anos. O perfil dos freqüentadores é de jovens em situação de vulnerabilidade social, em liberdade assistida ou que prestam serviços à comunidade. A entidade oferece oficinas profissionalizantes de cabeleireiro, pizzaiolo, montagem e manutenção de computadores, curso de inglês, aulas de hip-hop, teatro e música, além de acompanhamento psicológico e de assistência social.
Numa comparação feita entre os jovens do projeto do Jardim Ângela e estudantes de uma escola pública local, descobriu-se que os envolvidos no projeto cometem menos infrações graves. Os jovens do projeto RAC roubaram menos – 3,8% deles, contra 8,5% do grupo escolar. Não foram presos por vender drogas enquanto 1,1% dos escolares foram parar na cadeia. Mais de 3,0% dos estudantes receberam dinheiro por bens roubados na escola, contra 1,9% dos participantes do RAC. Os jovens do RAC, entretanto, participam mais de brigas no ambiente escolar (48,1%) que os alunos da escola pública local entrevistada (28,2%). Eles também começaram mais brigas, com 30,2%, contra 21,8%. Quase 2% dos participantes do RAC estão envolvidos com tráfico de drogas, contra 0,5% dos estudantes.
"Nossa avaliação aponta que o projeto causa um efeito positivo na vida desses jovens, tanto no que se refere à melhoria de seus relacionamentos na família, na escola, com seus pares e no bairro. Eles sofrem alterações comportamentais, inclusive no que diz respeito ao envolvimento com consumo de álcool e drogas. Percebemos também que o projeto proporciona melhor preparação dos jovens para o mercado de trabalho e na construção de um projeto de vida", conta a pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Caren Ruotti.
"Porém os efeitos do projeto parecem ser mais promissores em relação à violência no grupo de jovens que não estão em conflito com a lei. Os jovens em medida sócio-educativa estão mais imersos num ciclo de violência. Entretanto, os dados demonstram que a exposição dos jovens à violência no Jardim Ângela ainda é muito alta, independe de eles participarem do projeto ou não", explica Ruotti. "Por conta da violência na região, há a necessidade de várias ações interligadas de caráter social, educativo e de segurança, que extrapolem somente a atuação do RAC", acredita Ruotti.
No projeto Luta pela Paz, desenvolvido no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, os resultados não são muito diferentes. Os jovens do projeto roubaram menos 4% do que os alunos de uma escola pública da região (7,1%). Os escolares receberem mais por bens roubados (7,2%), contra 5,9% dos participantes do Luta pela Paz. Quase 2,5% dos estudantes já ameaçaram alguém com algum tipo de arma enquanto os jovens do projeto nunca o fizeram.
Entretanto, os jovens do Luta pela Paz participaram mais de briga na escola 38% deles, contra 19,3% dos estudantes. Cerca de 2% dos jovens do projeto estiveram envolvidos com venda de drogas ou trabalharam no tráfico. Nenhum dos estudantes teve essa participação.
O Luta pela Paz é uma organização não-governamental que tem como objetivo oferecer a jovens em situação de risco, alternativas ao crime e ao trabalho no tráfico de drogas. A entidade atende crianças e jovens entre 7 e 25 anos em atividades esportivas (boxe, capoeira e luta livre), educacionais, inglês, cidadania e informática.
Segundo explica a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Edinilsa Ramos de Souza, que estudou sobre o Luta pela Paz, era esperado que eles fossem os maiores protagonistas da violência. "Eles continuam expostos ao crime. Parte deles tem mais parentes assassinados, amigos que andam armados e acesso facilitado à arma de fogo", revela. "Por isso acreditamos que o projeto seja bem sucedido e que, de certa forma, tem papel importante na conscientização desses jovens para que não cometam ações violentas e estejam longe das armas", acredita.
Os dois projetos foram estudados a pedido do Armed Violence Prevention Program (AVPP). A idéia do AVPP é avaliar iniciativas de prevenção da violência voltada para o público juvenil, como forma de verificar sua eficácia, sensibilizar autoridades quanto à necessidade de investimento na área de prevenção e estimular a replicação de experiências com êxito.

Nenhum comentário:
Postar um comentário